sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Uva.

Caminhando pela minha rua, algumas sujeiras, muitos carros e nenhuma pessoa. O vento soprava leve, a chuva de tanto ameaçar, não se dava por contente, resolveu cair. A feira das terças-feiras acabará de acabar. Algumas frutas, sozinhas, largadas, a deriva, ficavam expostas as gotas da chuva. Olhando pelas esquinas, me deparei com um homem e uma menina, ainda criança, caminhando atentos por entre o viés das ruas. O carrinho de transportar papelão, de tão vazio, formava reles apetrecho a situação. São tantos que vejo pelo dia, que minha visão se acostumou; como os postes se tornaram pela minha vida. Se algum desaparecesse, eu não notaria. Cruel sou ao escrever isso, mas para mim, continuava sozinha. Mas algo me chamou atenção na menina. Sua inocência se ofuscava no cabelo mal lavado, e nas sandálias sujas enrugadas de tão velhas. Fiquei imaginando como seria seu nome. Maria, Ana, Beatriz, talvez, porém, meu pensamento logo fugiu quando percebi que eles corriam em minha direção. Com uma mão segurando o carrinho, e a outra de mãos dadas com o homem, que imaginei ser o pai dela, subia. E não só subia, sorria. E não só um sorriso, o sorriso. Como se avistasse um tesouro nunca antes encontrado. Imaginei milhares de coisas. Um assalto, uma indagação, um pedido. Confesso ter sentido medo. Entretanto, meu medo foi-se embora, quando eles feito um foguete, passaram por mim e logo pararam na esquina, onde uma pilha de papelão os esperava. Senti-me um lixo, mais um pedaço de papelão jogado pela rua. Como pudi pensar em um assalto? A vida nos gosta de dar lições. E a minha, desse dia, não parava por aí. Depois de juntar todos os papelões, cuidadosamente, se alinharam com o meio fio, para esperar o trânsito, que àquela hora do dia, ameaçava um caos. A menina, tímida de estar ao meu lado, abaixou-se, e com as mãos mais infantis que eu já vi, pegou uma única uva do chão. Amassada, e aposto que sem caldo algum. Ela devia estar ali, há no mínimo uma hora, a mira de chuva, enxurrada ou até um animal. Pensei em perguntar o porquê ela pegou a uva. Porém, logo descobri. Foi quando a menina olhou com os olhos de um cachorro abandonado, e disse: ‘’Pai, a chuva vai aumentar!’’ Eu não estava errada, o homem era mesmo o pai da menina. O homem, sem estimular nenhuma reação a mais, mirou seus olhos ao céu. A menina, num gesto rápido e repentino levou suas mãos a boca e engoliu a uva. Logo depois, soltou um riso de satisfação. Sua inocência foi devolvida a ela, por um segundo. Foram-se os dois por entre os carros parados. E eu ali, extasiada de tanta indignação, fui tomada pelo sentimento mais confuso que já senti. Eu queria ser uma uva. Queria estar no chão, enrugada, suja, esquecida. Mas boa o bastante para arrancar do rosto de uma criança, um sublime sorriso de satisfação.

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